Sessão Particular

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Oi,

Eu demorei, eu sei.

É que a vida corre e minha perna é curta.

Meus dedos são rápidos, mas o texto não se escreve mais.

Eu deveria ter entrado na onda dos textões daquela rede social.

Daria para escrever mais bonitamente.

Para começar esta publicação, olha este tweet:


João não é livre para ouvir Phil Collins. Nem funk, nem sertanejo, nem nada. Só pode ouvir rock. E tem que ser rock mesmo. Isso que você ouve não é rock. Bom mesmo é Beatles. E jazz? E música que ninguém conhece, claro. Música que não toca nas rádios, sabe? Música comercial é música ruim.

Ruim é o seu preconceito.

Eu ainda me chamo Laíza, ainda sou redatora publicitária, mas agora estou me especializando em Neurociência. Esse vai ser mais um assunto do Menas e eu espero profundamente que você goste tanto quanto eu. Ainda mais porque o poder da música é um dos assuntos que mais me chama a atenção dentro da Neuro e eu sei que você gosta de música.

Que bom gosto, hein?

É bem comum a gente considerar alguém de “bom gosto” como sendo alguém que tem gosto semelhante ao nosso. Isso acontece porque a gente é demais, o centro do universo, o último Stark vivo, temos até uma vitrola e um saco cheio de arrogância amarrado no pescoço. Acontece que aquele poder da música que eu citei ali tem pouco ou nada a ver com gosto ou qualidade musical.

Todo o mundo tem medo do shuffle.

Eu tenho. É porque ninguém vai entender a importância que a voz da Celine Dion tem na minha vida, ou a festa que “Gandaia “da Karol Conka faz em minh’alma, ou como eu trabalho bem ouvindo Vivaldi, ou o quanto eu me acalmo ouvindo Pitanga em Pé de Amora, ou ainda que John Mayer e sua guitarra me fazem sentir próxima dos meus amigos de Orkut (oi, lindos) que estão espalhados pelo mundo.

“A música tem mais capacidade de ativar mais partes do cérebro que qualquer outro estímulo”.

Leve isso a sério, porque quem disse essa bela frase foi o neurologista mais pop que já existiu: o Oliver Sacks, em um dos documentários mais emocionantes do Netflix mundo.

O documentário Alive Inside: A Story of Music and Memory é um filme de 2014, dirigido e produzido por Michael Rossato-Bennett. Ele conta a história de um assistente social que visita casas de repouso levando consigo iPods e fones de ouvido. Lá, ele conversa com pacientes debilitados que sofrem de bipolaridade, esquizofrenia, Alzheimer, demência e outras condições, e oferece música como conforto. O que acontece é <SPOILER> fascinante. Enquanto a música toca, pacientes que não lembram o nome dos próprios entes queridos contam, com detalhes, episódios da sua infância </SPOILER>.  Assista ao trailer e prepare-se para suar com os olhos.

 

A música é um estímulo poderoso que revive memórias, organiza o raciocínio, sincroniza corações e reafirma a sua identidade. Vá lá na farmácia e busque um remédio que faz isso.

No livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, Oliver Sacks conta a história de um professor de música universitário que desenvolveu a incapacidade de reconhecer objetos e rostos. Isso não só atrapalhou suas relações interpessoais, como também o tornou dependente em tarefas simples como vestir uma roupa. Olha o trecho em que ele se depara com uma luva:

“O que é isto?”, perguntei, segurando uma luva.

“Posso examinar?”, ele pediu e pegando-a, passou a examiná-la(…).

“Uma superfície contínua”, declarou por fim, “envolta em si mesma. Parece ter cinco bolsinhas protuberantes, por assim dizer”.

“Sim, o senhor me fez uma descrição. Agora me diga o que é”.

“Algum tipo de recipiente”?

“Sim”, respondi. “E o que ele guarda?”

“Guarda seus conteúdos”, replicou o professor, rindo. “Há muitas possibilidades. Poderia ser um porta-moedas, por exemplo, para cinco tamanhos de moedas. Poderia…”

Interrompi a torrente de ideias amalucadas. “Não parece familiar? Não acha que isso poderia servir em uma parte do seu corpo?”

Posteriormente, por acidente, ele a calçou, exclamando “Meu Deus, é uma luva!”

Ainda não vou usar os termos que estou aprendendo (vixe) visto a complexidade do cérebro, mas resumo que o que acontece é isso: os olhos do professor funcionam perfeitamente, o que não funciona é interpretação do que ele vê. Essa condição é causada por uma lesão cerebral e não tem cura. Acontece que o professor parecia um pouco confuso, mas lecionava normalmente e sua mulher não estava com ele o tempo todo para ajudá-lo.

O que acontece quando ele está vestindo, lavando as mãos, tomando banho? Segui sua esposa até a cozinha e perguntei como, por exemplo, ele conseguia vestir-se. “Eu deixo fora suas roupas de costume e ele se veste sem dificuldade, cantando para si mesmo. Faz tudo cantando para si mesmo. Mas, se for interrompido, ele perde o fio da meada, para completamente, não reconhece suas roupas – nem seu corpo. Ele canta o tempo todo – canções de comer, canções de vestir, canções de banho, de tudo. Não consegue fazer uma coisa se não transformar em uma canção.”

O tratamento? Invejo: “o que eu prescreveria em um caso como o seu é uma vida que consista inteiramente de música. A música tem sido o centro, agora faça dela toda a sua vida”. Isto é,  fundamentalmente, o poder que a música tem para organizar quando formas abstratas ou esquemáticas de organização falham. Isso me lembra…

Efeito Mozart

Existe uma hipótese de que quando você escuta Mozart você fica mais esperto. Essa teoria foi testada e foi comprovado* que ouvir música clássica melhora por um curto período o desempenho em determinadas tarefas, como jogar xadrez ou resolver um problema matemático. Aqui sim tem um argumento contra o seu play no Kanye West durante o trabalho, mas não tem a ver com o gosto, viu? Tem a ver com esse estudo aí.

Abra sua Sessão Particular

No Spotify tem aquele botão que permite ocultar o que você está ouvindo na timeline dos seus amigos. Liberte-se. Respeitar o gosto musical do coleguinha é uma atitude nobre, porque agora você já sabe (e pode compartilhar este post para espalhar a notícia) que música não é apenas arte ou entretenimento. Música é vida. Parece poesia, mas é só neurociência.

Agora eu vou deixar uma foto do Oliver Sacks novinho aqui para não concluir o assunto e deixá-lo aberto para sempre. Uma beija.

Oliver Sacks, 1961.
Oliver Sacks, 1961.

 

 

*William Pryse-Phillips (2003). Companion to Clinical Neurology. Oxford University Press.

4 Comments

  1. Meu deus, que texto maravilhoso!
    Quero tatuar a frase “a música é um estímulo poderoso que revive memórias, organiza raciocínio, sincroniza corações e reafirma sua identidade. Vá lá na farmácia e busque um remédio que faça isso” no meu cóccix!

    Uma beija, maravilhosa!

  2. Fiquei com muita vontade de ler o livro do moço das luvas.
    Obrigada por compartilhar seus conhecimentos, agora já sei o que ouvir enquanto estiver estudando pras minhas provas.
    Beijosmil

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